Quando o meu cliente me demite.
- Luzane Ribeiro
- 26 de jan. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de ago. de 2023
Essa semana passei por uma situação que se você na advocacia ainda não passou, com certeza passará ao longo de sua carreira.
Perdi (ou sendo mais específica), fui demitida por um cliente. Refeita da surpresa inicial e decidida a esmiuçar e refletir sobre o ocorrido, percebi que, a depender de alguns fatores, quando ocorre algo desse tipo com a gente, essa perda pode ser encarada de três formas:
1. Uma lição a ser aprendida;
2. Uma reafirmação de nossos valores;
3. Um realinhamento de carreira.
Geralmente, no início da carreira, quando não temos a nossa área de atuação madura e definida o suficiente, costumamos nos envolver em várias áreas do direito que demandam estudo, atenção, dedicação e ritos processuais distintos. Além do mais, existe o fato de que cada cliente tem suas características pessoais únicas, que vão demandar de nós, advogados, tratamento diferenciado. E não estou aqui falando de privilégios para A, B ou C. Falo de clientes que gostam do contato mais próximo, presencial e detalhado em contraponto ao cliente que é superatarefado e gosta das coisas estilo FastFood. Poucas reuniões – de preferência virtuais - pontuais e resolutas, sem delongas. Então, é evidente que esses clientes pedem de você atitudes diferentes.
Existe também aquele cliente que você, enxergando inicialmente ser uma boa causa, percebe ao longo do tempo que não há a mínima vontade naquele que te procurou de resolver o problema. Há ali sim um poço de mágoa, desejo de vingança ou de tirar a paz de outrem a quem acredita merecer todo o sofrimento e dor de cabeça que puder causar. Acredite, esse tipo de cliente não faz mal apenas a si mesmo como também tem a incrível capacidade de sugar a nossa energia. Para cada solução que você apresenta, ele vem com outro problema.
Mas tem também aquele cliente que te procura de fato precisando do seu auxílio para resolver seu problema, que é diligente para com todos os documentos e informações que você solicita, que te deixa trabalhar tranquilo confiando na sua boa atuação enquanto profissional. Existem tantos outros que poderia aqui citar.
Em qualquer das situações acima ou outras tantas que se apresentem, ao ser despedido por um cliente, é importante refletirmos sobre quem é o cliente que nos dispensa e qual a nossa contribuição para esse fim. Mas de tudo fica a certeza de que nunca perdemos verdadeiramente.
Se foi um cliente cuja causa já não tem mais a ver com a nossa escolha de área de atuação, fica a lição de que às vezes, indicar um bom colega para quem nos procura, ajuda a fortalecer a confiança no nosso trabalho perante este, ainda que não trabalhemos na sua causa. E ser visto como alguém de confiança é ouro!
Em contrapartida, se quem nos deixou foi aquele cliente que não queria de fato resolver o seu problema, que estava mais interessado em fazer a outra parte “sofrer” por vingança ou seja lá o que for, o fato de nos deixar é verdadeiro bálsamo para a nossa paz. Acredite, existem pessoas tão magoadas em suas relações que pensam que impingindo ao outro verdadeiro assédio jurídico, estarão lhe dando “o que merece”.
Nesses casos, se identificar que está diante de um cliente com esse, não se acanhe em demiti-lo você, caso não consiga demovê-lo de sua sanha de vingança. Acredite, a paz de espírito (ou falta dela) é capaz de contagiar a todos. Advogar não é declarar guerra. Advogar é resolver o problema de quem nos procura, é dar voz a quem tem seu direito atingido. Tenha sempre isso como um valor inegociável.
Por fim, a lição a ser aprendida:
Nós não somos os primeiros e nem seremos os últimos a ser demitido ou demitir um cliente. Em qualquer um dos casos, o importante é analisar os fatos que levaram até esse rompimento, ajustar o que tiver que ser ajustado, se cientificar de que - tendo sido nossa a falha – essa não ocorra mais e lembrar sempre que a advocacia é uma profissão onde, quanto mais experiente, melhor nos tornamos desde que tenhamos sempre humildade para admitir erros, coragem para reafirmar nossos valores e sabedoria para promover as mudanças necessárias, pois como disse Clarice Lispector em carta à sua irmã Ana, “Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”

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